Nube Kulina, indígena de recente contato do médio rio Juruá, no Amazonas, desapareceu após ser solto de presídio. Justiça havia determinado transferência a Manaus (Foto: Divulgação)
- Nube Kulina foi transferido de Envira (AM) à capital, a 1.200 km de distância, e acabou solto sem aviso à família ou à Funai
- Desaparecimento durou três meses; em parte do tempo, indígena, que não fala português, viveu em situação de rua
Sinop (MT)
O indígena de recente contato que desapareceu após ser solto de um presídio em Manaus, sem que a família ou a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) tivessem sido comunicadas sobre a efetivação da soltura, foi encontrado na cidade, após ter vivido uma parte dos últimos três meses de liberdade como morador de rua.
A informação foi confirmada pela Defensoria Pública do Amazonas, que atuou no caso, e pela Opiju (Organização dos Povos Indígenas da Calha do Juruá), que buscou uma solução para o desaparecimento a partir da detecção do que havia ocorrido na capital do Amazonas.
Nube Oma Kulina, 24, foi encontrado no último dia 1º e levado de avião, pela Funai, à região do médio rio Juruá, a 1.200 km em linha reta de Manaus, na última segunda-feira (7).
O caso foi mostrado pela Folha em reportagem publicada em 28 de agosto.
Nube, que estava preso preventivamente por suspeita de tentativa de feminicídio, é da etnia madiha kulina, classificada como de recente contato pela Funai.
Essa classificação se dá porque os madihas não dominam a língua portuguesa, preservam um sistema cultural próprio nas aldeias e têm dificuldade em lidar com a vida urbana, o que inclui as cidades próximas, como Envira e Eirunepé (AM).
A prisão se deu em julho de 2025. Em outubro, a Justiça do Amazonas determinou a transferência de todos os presos que estavam na delegacia de Envira para presídios em Manaus.
A decisão atendeu a um pedido do Ministério Público, que enxergou riscos em ameaças de caos perpetradas pela facção criminosa Comando Vermelho na cidade, como retaliação a uma ação policial.
Nube e os demais presos foram transferidos, então, a Manaus. Em 28 de maio deste ano, ele foi colocado em liberdade, por decisão da Justiça.
O sistema prisional do Amazonas, porém, não comunicou a família e a Funai, o que é recomendado especialmente em casos envolvendo indígenas de recente contato, sem domínio da língua, sem rede de apoio numa grande cidade e avessos aos códigos urbanos.
O desaparecimento durou mais de três meses. Pessoas da região central de Manaus, que haviam conhecido Nube, relataram que ele estava numa casa nessa região da cidade, o que foi confirmado por Defensoria Pública e Funai.
Foi necessária a ajuda de um tradutor da língua madiha, por meio de chamadas de vídeo pelo celular, para compreensão sobre o que ocorreu após a soltura do presídio.
Segundo os relatos colhidos pela Defensoria, assim que foi solto, Nube deixou a unidade prisional caminhando, até ser auxiliado por um homem a entrar num ônibus.
Ele desembarcou no centro de Manaus, na área portuária, e viveu na rua por dias, auxiliado por pessoas que vivem na região, até ser abrigado numa casa próxima.
Ainda de acordo com relatos, só houve o entendimento de que ele estava desaparecido –e de que era procurado pela família e por organizações indígenas– após a leitura da reportagem e visualização da foto de Nube replicadas num jornal local.
O Governo do Amazonas afirmou que a soltura de Nube se deu em “estrito cumprimento” da decisão da Justiça e que a Funai foi comunicada sobre a presença de indígenas nos presídios.
Uma resolução do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) de 2019 prevê encaminhamento dos autos à Funai, não a obrigação de comunicar quando um indígena é colocado em liberdade, segundo a Secretaria de Estado da Administração Penitenciária.
O Tribunal de Justiça do Amazonas disse que a Comarca de Envira comunicou a Funai e a aldeia Vida Nova sobre a decisão de soltura de Nube. As transferências de presos se deram em razão da situação precária e irregular da custódia na delegacia, conforme o tribunal.
O desaparecimento de Nube teve semelhanças com o caso de Tadeo Kulina, da mesma etnia e da mesma região, mas com desfechos distintos.

Em fevereiro de 2024, Tadeo desapareceu de uma maternidade pública em Manaus, onde a mulher dele, Ccorima Kulina, havia dado à luz a quarta filha do casal. Os dois foram levados de Envira à capital em razão dos riscos de saúde à indígena na fase final da gestação.
O corpo de Tadeo foi encontrado no IML (Instituto Médico Legal) mais de uma semana depois, com marcas de agressões na cabeça, no tórax, no abdome e nos membros.
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