- Sinto meu filho em meu ventre e penso sobre o seu futuro e o das crianças do território
- Sigo escrevendo e traduzindo o que temos a compartilhar
Txai Suruí
Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé
Quase todas as nascentes do território secaram, nos contou o xondaro (guerreiro) de nome Tupã na opy (casa sagrada) na noite passada. Também ouvimos do xeramoi (líder espiritual) que, “podem não acreditar, mas um dia o clima vai mudar tanto que até o pico onde vivemos, o ponto mais alto da cidade, será todo coberto de água”.
No fim de semana passado, eu passei mal na feira por causa do calor. Ontem tivemos que fazer remédio para a garganta porque alguns bebês e adultos ficaram doentes, possivelmente pela mudança brusca de temperatura.
O El Niño será o mais forte em muito tempo, alertam os cientistas e os jornais. Nossos líderes espirituais e nossas lideranças também nos alertam. Já sentimos as emergências climáticas há muito tempo. Podemos notar que atingimos o limite, o ponto de não retorno, que vem deixando o clima mais extremo. O planeta ultrapassou a marca de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.
Meus parentes indígenas em Mato Grosso do Sul seguem sendo assassinados, assim como em outros lugares do Brasil. Nossas mulheres seguem sendo violentadas física, moral, psicológica, sexual e politicamente. A crise climática não acontece separada da violência contra os povos e seus territórios.
Sinto meu filho, que cresce em meu ventre, chutar e penso sobre seu futuro e o das crianças do território.
Em meu estado natal, os políticos e latifundiários, que mandam no lugar, fazem campanhas eleitorais defendendo a não demarcação das terras indígenas e o avanço da degradação ambiental em nome do lucro, sem pensar na natureza, ignorando quão danoso isso é para a vida na Terra.
Ignoram o momento que vivemos, de dentro de suas mansões com ar condicionado, construídas com a ganância do “se eu ganho, pouco importa quem perde”. De fato são coisas incompreensíveis, que não gostaria de estar vivendo e vendo. Não sei se foi a “civilização” ou o “progresso” que cegou e acomodou tanto.
Se eu fizer antropologia e estudar o não indígena, talvez possa entender e explicar ao meu povo por que destroem a floresta para “derreter como lesmas no asfalto”, como diz Krenak, e soterram os rios com asfalto e os transformam em esgoto para sofrer por falta d’água.
Na aldeia onde moro, vivemos cercados e espremidos pelas rodovias que carregam os nomes dos bandeirantes que expulsaram e massacraram nossos povos. Muito do nosso modo de vida foi alterado. A maioria de nós não consegue mais plantar nossos alimentos tradicional e tem que comprar comida contaminada do mercado.
Apesar disso, seguimos resistindo. Mais de mil árvores foram plantadas em nossa aldeia. Delas colhemos as folhas de erva-mate para nossa cerimônia sagrada do Ara Pyau (tempo novo), que se aproxima.
Apesar de não ser mais possível prever o clima, seguimos buscando o equilíbrio. Por isso lutamos, não apenas por esse território, mas por toda mata que ainda está de pé, por toda serra que ainda abriga onças e outros animais.
Sigo escrevendo e traduzindo o que temos a compartilhar. Talvez não seja possível reflorestar todas as florestas sozinhos, mas talvez algumas mentes possamos reflorestar.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/09/reflorestar-matas-e-mentes.shtml
Comentários