Garimpo cerca a comunidade Hupiano, na terra indígena Yanomami, em Roraima – Lalo de Almeida – 18.jan.24/Folhapress
- Balanço da Funai sobre desmatamento em 2025 aponta forte concentração de atos criminosos
- Área total desmatada em terras demarcadas chegou a 81,7 mil hectares no ano passado, queda de 25% em relação a 2024
Brasília
Treze territórios demarcados concentraram 51% do desmatamento registrado em 2025 em terras indígenas na Amazônia Legal. Ao todo, a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) monitora 395 áreas dessas.
O balanço faz parte de um relatório da autarquia ao qual a Folha teve acesso. Segundo o documento, de maneira geral, houve queda de 25% no desmatamento em territórios indígenas no ano passado. Contudo, a pressão dos criminosos continua intensa em regiões específicas.
A reportagem procurou o Ministério dos Povos Indígenas, a Funai, o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para comentar os dados e apontar possíveis ações que devem ser retomadas nas áreas mais críticas. Não houve resposta até a publicação deste texto.
Ao todo, foram contabilizados 30.128 hectares de desmatamento de corte raso em 2025 (ante 40.178 hectares em 2024). Este termo se refere a situações em que toda a vegetação é derrubada, deixando a área completamente sem floresta. Normalmente, esse tipo de devastação ocorre para dar lugar a pasto ou a plantio de soja.
Os dados da Funai mostram que 324 terras indígenas da região sofreram com esse tipo de exploração mais crítica, o equivalente a 82% das terras monitoradas pela fundação.
Dos 30 mil hectares derrubados, 15,3 mil hectares estão concentrados em 13 terras demarcadas:
- Porquinhos dos Canela-Apãnjekra;
- Sararé;
- Utaria Wyhyna/Iròdu Iràna;
- Kanela Memortumré;
- Aripuanã;
- Kayapó;
- Alto Rio Negro;
- Cachoeira Seca;
- Raposa Serra do Sol;
- Bacurizinho;
- Parque do Aripuanã;
- Munduruku;
- Batelão.
Essas 13 áreas ficam localizadas no Maranhão, Pará, Mato Grosso, Amazonas e Roraima e estão no chamado arco da devastação, uma faixa que inclui o sul e o leste da amazônia e que sofre com o avanço da agropecuária, garimpo, extração ilegal de madeira e da ocupação irregular de terras públicas.
O corte raso não é o único tipo de desmatamento que destrói a floresta. O relatório também registra os locais onde houve degradação de terras, quando a ação na floresta é mais seletiva, para atividades como roubo de madeira. Uma terceira categoria diz respeito a danos à regeneração da mata, quando o crime afeta áreas que já estavam se recuperando.
Os casos de degradação chegaram a 43.076 hectares. Já as terras em regeneração foram atingidas em 8.540 hectares.
Somando os três tipos de crimes contra a floresta, a área total afetada entre os 395 pontos monitorados chegou a 81,7 mil hectares.
Apesar de ser um volume crítico de desmatamento, o resultado é 36% inferior ao total verificado em 2024, quando 128 mil hectares de florestas em terras demarcadas foram atingidos.
No caso específico do corte raso, os 30 mil hectares verificados em 2025 foram o menor patamar da série histórica, iniciada em 2016.
O relatório mostra que 7 das 13 áreas apresentaram queda no desmate entre 2025 e 2024. Foi o que ocorreu, por exemplo, nas terras indígenas Sararé (32%), Kayapó (54%) e Cachoeira Seca (68%). Outros seis territórios, porém, tiveram crescimento do desmatamento no período, como Kanela Memortumré (166%), Aripuanã (129%) e Bacurizinho (30%).
A Amazônia Legal é uma região usada pelo governo para planejar políticas públicas ligadas à proteção da floresta. Sua área abrange nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Mato Grosso, Tocantins e parte do Maranhão. Ela ocupa 59% do território nacional e reúne a maior parte das terras indígenas do país.
No documento da Funai, os técnicos da autarquia avaliam que, “considerando a tendência observada de alta concentração de grande parte do desmatamento em um grupo restrito de terras indígenas, a atuação focada nestas áreas com ações de proteção territorial tende a otimizar os resultados na redução dos índices de desmatamento nas terras indígenas como um todo”.
O Brasil terá de quadruplicar o ritmo atual de restauração de florestas para atingir a meta de recuperar 12 milhões de hectares até 2030. Se quiser cumprir a promessa, o país deverá restaurar, em cada um dos próximos cinco anos, uma área equivalente a 11 vezes a cidade de São Paulo ou a 14 vezes a cidade do Rio de Janeiro.
Incêndios florestais
O Centro de Monitoramento Remoto da Funai também identificou que 195 terras indígenas da Amazônia Legal foram alvos de queimadas em 2025.
Assim como ocorre com o desmatamento, o impacto das queimadas está concentrado em algumas áreas. Seis delas responderam por metade do total: Parque do Araguaia (MT), Raposa Serra do Sol (RR), São Marcos (RR), Parabubure (MT), Parque do Tumucumaque (AP) e (PA) e Kraolândia (TO) e (MA).
Após os incêndios recordes de 2024, algumas registraram recuo na área atingida no ano passado. Foi o caso da terra Parque do Araguaia, por exemplo, onde a área queimada passou de 798,6 mil hectares em 2024 para 432,5 mil hectares em 2025, uma redução de 46%.
Na Parque do Tumucumaque, a área caiu de 146,9 mil para 128,2 mil hectares no mesmo intervalo, uma diminuição de 13%.
Em alguns territórios, porém, houve aumento das queimadas. Na terra indígena Raposa Serra do Sol, a área atingida subiu 36%, de 259,7 mil hectares em 2024 para 354 mil hectares em 2025. Em São Marcos, o crescimento foi de 78%, saindo de 86,8 mil para 154,3 mil hectares derrubados pelo fogo.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/05/treze-terras-indigenas-concentram-51-do-desmate-em-territorios-monitorados-na-amazonia.shtml
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