Helena Corezomaé e Suyani Terena durante a premiação. Foto: Moiara Katxuyana
Filme que narra a força das mulheres da TI Tirecatinga (MT) conquistou menção honrosa em festival internacional, celebrando o poder do audiovisual na defesa do território
O documentário “Thutalinãnsu”, que narra a trajetória de resistência e protagonismo das mulheres da Terra Indígena Tirecatinga, localizada em Sapezal (MT), conquistou o prêmio de menção honrosa no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA). O anúncio dos premiados aconteceu no último domingo (21), durante o encerramento do evento.
A produção mato-grossense concorreu na mostra competitiva voltada para Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais. Com 19 minutos de duração e direção de Helena Corezomaé, o filme mergulha na força, sabedoria e coragem de um coletivo feminino que lidera a preservação cultural e a defesa de seu território contra as ameaças ambientais e climáticas. O documentário foi realizado pela Associação Thutalinãnsu, Operação Amazônia Nativa (OPAN) e Rede Katahire, com apoio da Rede Juruena Vivo e do Instituto Catitu.
Fundada em 2018, a Associação de Mulheres Thutalinãnsu nasceu em um contexto desafiador. Para Cleide Terena, presidente da organização, o prêmio é um marco de empoderamento e validação de uma luta que começou do zero.
“A organização Thutalinãnsu foi pensada diante de uma situação muito difícil. Nosso território tinha um papel muito mais voltado para os homens. As mulheres estavam presentes nas reuniões, mas não tinham voz para liderar ações voltadas ao bem viver, ao valor cultural e ancestral”, relembra Cleide.

A presidente destaca que a associação mudou a realidade local, transformando donas de casa em lideranças qualificadas e respeitadas.
“Falar do território através das mulheres é um grito muito forte de ser ouvido. Passamos por muitas dificuldades e energias contrárias de quem dizia que não éramos capazes. Mas quando somos reconhecidas, a gente se sente grande. Antes da associação, eu era apenas uma dona de casa. Hoje somos qualificadas, respeitadas e valorizadas pelo nosso próprio trabalho”, celebra.
Para Suyani Terena, cineasta e produtora do documentário, o cinema contribui para amplificar a causa, abrindo portas tanto em órgãos governamentais quanto na iniciativa privada.
“Fico muito feliz de ver, através do audiovisual, a Thutalinãnsu ocupando esses espaços e levando a voz das mulheres que fazem a gestão territorial e o cuidado com a terra, assegurando as águas e o saber milenar. O documentário serviu para reforçar nossa fala e mostrar para os apoiadores como esse trabalho é feito na prática”, pontua Suyani.

Membro também da Rede Katahirine, primeira rede de cineastas indígenas do Brasil, Suyani se emociona ao falar sobre a responsabilidade de carregar essa história nas telas.
“Quando estou representando a associação, não sou apenas eu, represento muitas histórias que cresci vendo. A Thutalinãnsu é algo tão grande que me sinto frágil e, ao mesmo tempo, fortalecida. É um trabalho que representa as que vieram antes, as que estão aqui hoje e as que ainda virão”.
Sobre a Associação Thutalinãnsu
Composta por 60 mulheres dos povos Terena, Paresi, Manoki e Nambikwara, a associação atua na Terra Indígena Tirecatinga, território nambikwara com presença multiétnica localizada em uma área de transição entre o Cerrado e a Amazônia.
Embora tenha nascido com o foco nos direitos das mulheres, o impacto do coletivo se expandiu para toda a comunidade, que hoje soma cerca de 260 pessoas. Atualmente, a Thutalinãnsu é uma instituição de referência na gestão de projetos voltados para soberania alimentar e subsistência digna, geração de renda sustentável, fortalecimento da cultura ancestral e proteção do território contra impactos das mudanças climáticas.
O reconhecimento no FICA consagra o esforço dessas mulheres que, unindo tradição e as telas do cinema, celebram a biodiversidade, a vida e a resistência indígena de Mato Grosso.
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