Foto: Associação Thutalinãnsu
Material foi entregue para todas as creches, escolas municipais, estaduais e rurais da região
Por Helena Corezomaé/OPAN, com contribuições de Suyani Terena.
Após o lançamento oficial no território, a Câmara Municipal de Sapezal sediou a cerimônia de entrega do Calendário Ecológico e Cultural de Tirecatinga, oficializando a expansão do projeto. Agora, o material integra a realidade de todas as creches e escolas municipais, estaduais e rurais da região. Realizado no dia 21 de maio, o evento marca um momento importante de difusão das culturas indígenas do território e do fortalecimento da conscientização ambiental local.
Desenvolvido a partir do protagonismo dos jovens, das mulheres indígenas e dos saberes dos anciãos, o calendário contou com o apoio da Operação Amazônia Nativa (OPAN). A iniciativa funciona como ferramenta pedagógica e de gestão ambiental, unindo dois grandes objetivos: consolidar a educação diferenciada dentro das aldeias e sensibilizar a comunidade urbana sobre os impactos reais das mudanças climáticas.
O projeto nasceu a partir da demanda das mulheres da Associação Thutalinãnsu, que começaram a notar as alterações nos ciclos naturais da região. Maria Margarete Noronha Valentin, professora e diretora das escolas indígenas do município, explica que o calendário é necessário para o diálogo entre gerações e para o registro das transformações ambientais observadas em 2026.
“A importância desse calendário na escola indígena é imensa. Quando os mais velhos vão à escola, eles mostram às crianças como era antigamente: como eram as chuvas, quantos dias duravam, quando cada frutinha nascia. Hoje, houve uma grande mudança climática, tanto na chuva quanto na seca, afetando alimentos nativos como o pequi. O calendário escancara essa realidade dentro do território Tirecatinga”, destacou Margareth.
Para ela, a chegada do material nas escolas e creches urbanas de Sapezal, viabilizada pela Associação Thutalinãnsu, é uma oportunidade única. “Queremos mostrar para as crianças da cidade, desde o mês de janeiro, o que mudou e o que temos hoje para trabalhar na preservação”, completou.
Cleide Terena, presidente da Associação Thutalinãnsu, ressalta que o calendário não é apenas um adereço de parede, mas sim parte de uma política pública estruturada de gestão territorial e ambiental. O documento serve como base para a comunidade dialogar com o poder público e garantir direitos em eixos como educação, saúde, emprego e agricultura sustentável.
“Nós viemos para a cidade estudar, fomos para a faculdade, mas nós retornamos ao nosso território. A nossa luta hoje não é mais através da flecha, mas através de documentos formalizados, de instrumentos técnicos. O calendário apoia o professor na aldeia, pois nossa pedagogia parte primeiro da nossa vivência cultural e da nossa matemática tradicional para depois introduzir os conteúdos gerais”, explicou Cleide, que relembrou sua própria trajetória de superação e resgate identitário para fortalecer sua comunidade.

O lançamento foi amplamente respaldado por órgãos de proteção e fomento. Carlos Márcio Vieira Barros, representante da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em Sapezal, enalteceu a precisão científica e cultural do material, apontando que o calendário deve nortear as ações do próprio órgão e do município.
“Esse calendário é muito importante porque foi construído pelos próprios indígenas, unindo conhecimentos ancestrais com o olhar refinado das mulheres e dos anciãos. Ele serve de base para políticas públicas municipais e estaduais. Nós da Funai não temos todo esse conhecimento milenar, então esse material ajudará o nosso setor técnico a ter um olhar muito mais assertivo e sensível para os povos indígenas desta região”, afirmou Carlos Márcio.
Com a distribuição do Calendário Ecológico em toda a rede de ensino de Sapezal, o Território Tirecatinga espera plantar uma semente de respeito à sociobiodiversidade, preparando as futuras gerações, indígenas e não indígenas, para os desafios climáticos do futuro.
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