As hidrelétricas existentes e planejadas (Figura 1) resultam em vários tipos de impactos sobre os povos tradicionais. A expulsão das comunidades das áreas inundadas pelos reservatórios implica uma quebra completa da base de sustentação e do modo de vida desses povos. Mesmo se os locais de residência dos povos tradicionais não são inundados diretamente, é notável a perda das fontes de alimentos, como peixes e quelônios, tanto no trecho inundado quanto nos trechos do rio abaixo e acima das barragens.
No caso dos povos indígenas, a perda dos locais sagrados é somada aos demais impactos, e este tipo de perda provoca ainda mais revolta entre os indígenas do que as perdas materiais pesadas. O fato de que os impactos das barragens se concentram entre as populações espalhadas na Amazônia e afastadas dos centros de poder, enquanto os benefícios vão para indústrias distantes, incluindo a exportação de energia na forma de commodities eletro-intensivos como o alumínio, destaca a afronta profunda desse tipo de desenvolvimento aos princípios de justiça ambiental.

Os proponentes das barragens se mostram pouco sensíveis aos impactos sobre os povos tradicionais. Por exemplo, o Dr. Paulo Rogério Cezar de Cerqueira Leite, um professor emérito de física e membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo, publicou no jornal o seguinte trecho a respeito do impacto da usina de Belo Monte sobre os povos indígenas:
“Os índios da região amazônica são, em origem, seminômades, deslocando-se periodicamente sempre que recursos naturais se escasseiem devido ao extrativismo a que eles mesmos recorrem. Portanto, dos pontos de vista cultural, psicológico e até mesmo material, contrariamente ao que pretendem alguns ambientalistas, o índio pouco ou nada sofrerá”.
Ainda, o texto do Dr. Leite taxou as pessoas que criticavam a hidrelétrica de Belo Monte como “ecopalermas”, “ignocentes”, “verdolengos”, “malabaristas”, “fanfarrões”, “pseudointelectuais” e um “exército extemporâneo de Brancaleone” (veja a minha resposta).[1]
Nota
[1] Esta série provém de uma contribuição do autor a um diagnóstico sobre contribuições dos povos indígenas, quilombolas e tradicionais à biodiversidade no Brasil e as políticas públicas que as afetam, organizado por Manuela Carneiro da Cunha, Sônia Maria Simões Barbosa Magalhães Santos e Cristina Adams para a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
A imagem que ilustra este artigo mostra um protesto das mulheres Munduruku na Usina de São Manoel (Foto: Juliana Rosa Pesqueira/FTP)
Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 600 publicações científicas e mais de 500 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.
Fonte: https://amazoniareal.com.br/hidreletricas-e-povos-tradicionais-1-resumo-da-serie/
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