Foto: Arquivo pessoal
Helena Corezomaé
Aposentado após décadas no Ministério da Saúde, o cuiabano Alírio Guimarães recorda os desafios da transição da Funai para a Funasa e as histórias de improviso e sensibilidade que humanizaram o atendimento aos povos indígenas de Mato Grosso
Com uma fala tranquila e gentil, o cuiabano Alírio Arthur Guimarães, de 66 anos, narra a história da saúde indígena em Mato Grosso. Ele acompanhou de perto a transferência da responsabilidade da saúde indígena da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para o modelo de gestão atual. Hoje, aposentado do Ministério da Saúde, Alírio é reconhecido por um legado que uniu o trabalho administrativo à sensibilidade humana, desenvolvida no cotidiano das comunidades.
Nascido em 20 de outubro de 1959, Alírio é filho de uma tradicional família cuiabana. Criado entre a capital e um período em Cáceres, sua formação passou pelo rigor do Exército, onde serviu na infantaria. Casado há 37 anos com Eliete Catarina de Matos Guimarães e pai de Larissa Maria de Matos Guimarães, ele conta que sua dedicação ao serviço público é um traço que o acompanha desde os 15 anos. No entanto, foi em 1994, ao ingressar na Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que seu caminho começou a ir em direção aos territórios indígenas.
“A minha primeira experiência em aldeia foi uma visita na Aldeia Pakuera, do povo Kurâ-Bakairi. Ali, veio à tona uma diferença muito grande entre o que a gente via pela imprensa ou nos livros e a vivência lá dentro. Percebi que não era um ‘outro mundo’, estávamos lidando com seres humanos que têm sentimentos, necessidades e que precisam ter sua cultura respeitada”, relembra Alírio.
Em 1999, quando a responsabilidade da saúde indígena foi transferida para a Funasa, Alírio atuava nos Recursos Humanos e não hesitou em se envolver na causa. Ele foi um dos responsáveis pela implantação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) em Mato Grosso. Ele lembra que os desafios eram muitos: “não havia sedes próprias, os recursos humanos eram escassos e o preconceito institucional era uma barreira”.
Em Cuiabá, o distrito funcionava em uma sala emprestada; em Barra do Garças e Canarana, a situação se repetia. Além da falta de estrutura, a equipe também enfrentava a discriminação dos municípios.
“A gente percebia que não só os indígenas eram discriminados, mas também os profissionais que trabalhavam com eles”, pontua. O trabalho exigia uma articulação constante com estados e prefeituras para garantir que o indígena tivesse acesso aos hospitais, muitas vezes recorrendo ao Ministério Público e à Defensoria para garantir o óbvio: o direito à vida.
Ao longo de décadas, Alírio colecionou histórias que revelam a precariedade e a improvisação necessárias para salvar vidas. Ele recorda o episódio em que levou uma cadeira de sua própria casa para o pronto-socorro de Cuiabá, para que dois indígenas do povo Munduruku, baleados em um conflito de garimpo, pudessem esperar por atendimento com um mínimo de conforto nos corredores superlotados.
Por outro lado, as vitórias também foram marcantes. Alírio foi um dos grandes defensores da “atenção diferenciada”, conceito que vai além do atendimento médico e abraça a cosmologia indígena.
Ele atuou diretamente na mediação com diretores de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) em Cuiabá para permitir a entrada de pajés nos hospitais. “Conseguimos convencer médicos a autorizarem rituais de pajelança dentro do ambiente hospitalar. Fizemos a ponte para que a equipe entendesse que aquilo era parte da cura”.
Sobre os avanços, Alírio destaca a evolução da logística e da força de trabalho. Ele lembra dos veículos antigos que sacolejavam gestantes e idosos por estradas precárias, cenário muito diferente das frotas e unidades de saúde atuais, que em sua avaliação, superam a estrutura de pequenos municípios. “Nossa cobertura melhorou muito, mas ainda precisamos avançar na resolutividade dentro das aldeias, usando ferramentas como a saúde digital”, analisa.
Para Alírio, o trabalho na saúde indígena é um caminho sem volta para quem se dedica de coração. Ele acredita que o profissional, independentemente de ser motorista, administrativo ou médico, acaba “assumindo a causa indígena”.

Ao se despedir formalmente do cargo em março deste ano, Alírio causou comoção entre colegas e lideranças. Seu nome é citado com respeito por organizações e por diversos povos do estado. Ele deixa uma mensagem clara para quem fica: o trabalho administrativo salva vidas tanto quanto o estetoscópio. “Aquele que trabalha na licitação ajuda a salvar vidas. Se ele não consegue comprar o medicamento ou contratar o carro, a equipe na ponta não trabalha e as pessoas perecem”, alerta.
Aposentado do Ministério, mas nunca parado, Alírio agora divide seu tempo com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde (AgSUS), onde passou a atuar. Entre a nova função, a academia, o ciclismo e a lida na chácara, onde ainda maneja a roçadeira motorizada com o mesmo vigor de quem corria os trechos de Mato Grosso, sua dedicação permanece. “Eu me aposentei do Ministério da Saúde, mas meu compromisso com os povos indígenas é permanente”, finaliza.
Comentários