Na última semana, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) foi anfitrião de um importante intercâmbio entre povos indígenas do Brasil e do Peru. O encontro teve como objetivo fortalecer a troca de experiências sobre proteção territorial, monitoramento ambiental, comunicação e estratégias de adaptação às mudanças climáticas vivenciadas pelos povos indígenas de Roraima.
Durante o encontro promovido pela Rainforest Foundation US, em parceria com a Danida e organizações indígenas parceiras, lideranças indígenas do Peru, além de convidados dos povos Wai Wai e Ye’kwana visitaram a sede da organização e conheceram a Sala de Situação do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas(DGTAMC), que utiliza o sistema Pantera para o monitoramento em tempo real de queimadas e chuvas. Ouviram as experiências desenvolvidas pelas comunidades indígenas de Roraima por meio dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), dos Planos de Adaptação Indígena, da atuação das brigadas indígenas e das ações realizadas pelos departamentos do CIR.
Foram apresentadas iniciativas do Departamento Jurídico, como as traduções da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para as línguas Macuxi e Wapichana, além dos Protocolos de Consulta construídos junto às comunidades indígenas. A equipe de Comunicação compartilhou a experiência da Rede de Comunicadores Indígenas Wakywaa, apresentou o protocolo de segurança desenvolvido para comunicadores, destacando o fortalecimento da comunicação territorial e o protagonismo da comunicação indígena na defesa dos territórios.
O intercâmbio realizado na capital e no chão do território, possibilitou diálogos entre lideranças, comunicadores, brigadistas e representantes das organizações indígenas, fortalecendo a troca de conhecimentos e experiências entre os povos.
Para Sineia do Vale, coordenadora do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas, o intercâmbio representa um importante espaço de construção coletiva entre os povos indígenas.
“Esse intercâmbio vem para trazer as experiências compartilhadas pelos povos indígenas do Peru, mas também para olhar as nossas experiências em Roraima, como trabalhamos a questão do monitoramento, das brigadas, dos GPVTI, operadores em direito e também os comunicadores”, destacou.
Sineia ressaltou a parceria construída há mais de 20 anos entre o CIR e a Rainforest Foundation US, que tem possibilitado o fortalecimento da instituição e autonomia dos povos indígenas do Estado.
“Eles têm feito um trabalho de apoio e fortalecimento junto ao CIR nas questões de sustentabilidade, com apoio às mulheres e, atualmente, apoiando principalmente o monitoramento e as brigadas indígenas”, afirmou.
Os participantes visitaram o tradicional Lago Caracaranã, na região Raposa,T.I Raposa Serra do Sol, onde houve troca com as lideranças locais sobre as mais diversas experiências. Na ocasião, eles conheceram mais sobre a construção dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), conhecidos também como planos de vida, instrumentos construídos pelos povos indígenas para planejar e fortalecer a proteção, o uso sustentável e a gestão de seus territórios.





















Lideranças visitando o Lago Caracaranã. (Fotos: Rede Wakywaa.)
Atualmente, o CIR já construiu, junto às comunidades indígenas, mais de 20 Planos de Gestão Territorial e Ambiental, fortalecendo ações de proteção e organização dos territórios.
Seguindo a programação, os participantes viajaram até a Terra Indígena Serra da Moça, na comunidade Serra da Moça, e viram de o trabalho das brigadas do PREVFOGO, parceria entre o Ibama e o CIR, além da Brigada Feminina Pataxibas, a primeira brigada feminina do Norte do Brasil.
Os povos do Peru compartilharam relatos sobre as grandes queimadas enfrentadas em 2024, durante o fenômeno climático El Niño. A experiência das brigadas indígenas em Roraima tornou-se referência para os participantes, principalmente pelo protagonismo das mulheres no combate e na prevenção aos incêndios florestais.
“Nós, mulheres, também podemos. As mulheres indígenas daqui estão avançando, sendo líderes e ensinando como estar na linha de frente. É diferente do Peru. Aqui as coisas estão funcionando. Lá, muitas mulheres ainda têm vergonha de falar. Essa capacitação é muito importante e vamos levar esse exemplo para as mulheres Ticuna”, destacou Rubi La Samuel, do povo Ticuna do Peru.












Lideranças durante intercâmbio na comunidade Serra da Moça. (Fotos: Rede Wakywaa).
A brigadista Pataxiba, Bruna Bentes Macuxi, da comunidade Sucuba, região Alto Cauamé, também falou sobre à importância da participação das mulheres nas brigadas.
“Quando abrem portas para a gente, vamos conquistando espaços, aprendendo e ensinando também, para cada vez mais ter força e mais mulheres dentro da brigada”, afirmou.
Os participantes do intercâmbio foram convidados para visitar a base das brigadas na comunidade Serra da Moça, onde é desenvolvido o projeto “Semear para Reflorestar”, um viveiro de plantas nativas apoiado pelo CIR com o objetivo de recuperar áreas degradadas pelo fogo.
A iniciativa é um projeto coletivo que reúne comunidade, brigadistas e estudantes da escola local no processo de reflorestamento do território. As lideranças plantaram mudas no viveiro. Cada organização plantou uma árvore, que ficará sob os cuidados dos brigadistas da comunidade, em um momento marcado pela emoção, troca de experiências e trabalho coletivo.
“Trazemos as crianças para acompanhar a semeadura das plantas e depois levamos elas para plantar essas sementes já germinadas. Temos aqui plantas como pau-rainha, cedro, mirixi, ipê, copaíba e açaí, madeiras que existem no nosso território e que utilizamos no dia a dia. Nosso projeto é para 3 mil mudas nativas”, explicou uma das brigadistas.












Participantes do Intercâmbio visitando a sede da brigada da comunidade Serra da Moça. (Fotos: Rede Wakywaa).
Ao longo da programação, o intercâmbio fortaleceu o diálogo entre os povos indígenas, promovendo a troca de experiências construídas nos territórios e aproximando iniciativas voltadas à proteção ambiental, comunicação indígena e enfrentamento às mudanças climáticas.
Para o tuxaua geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Amarildo Macuxi, o encontro reforça à importância da união entre os povos indígenas na defesa dos territórios.
“Quando os povos indígenas se encontram para compartilhar experiências, todos saem fortalecidos. O que estamos construindo em Roraima nasce dos territórios e hoje também contribui com outros povos da Amazônia”, afirmou.
A diretora de programas da Rainforest Foundation US, Cristine Halvorson destacou à importância das experiências construídas em Roraima e o protagonismo das comunidades indígenas.
“É muito forte ver como as comunidades indígenas estão liderando soluções concretas para proteção territorial, comunicação e enfrentamento às mudanças climáticas. O intercâmbio mostra como o conhecimento compartilhado entre os povos fortalece toda à Amazônia”, ressaltou.
O intercâmbio encerrou reafirmando as que respostas para os desafios climáticos e territoriais já existem dentro dos próprios territórios indígenas. A troca entre os povos fortaleceu experiências construídas coletivamente e mostrou que iniciativas desenvolvidas em Roraima hoje ultrapassam fronteiras, tornando-se referência para outros povos da Amazônia e do mundo.
Texto: Charles Taurepang- ASCOM/CIR.
Revisão: Helena Leocádio- ASCOM/CIR.
Fotos: Gleidson Luan (Comunicador Rede Wakywaa- CIFCRSS), Felipe Macuxi (Wakywaa Região Raposa) e Addison Cristian (Wakywaa Região Raposa).
Comentários