A comunicação é instrumento de resistência, luta e defesa dos territórios. Em Roraima, esse movimento também passa pela atuação de jornalistas e comunicadores indígenas que, a partir de seus próprios territórios e vivências, ajudam a contar histórias que, por muito tempo, foram contadas por outras pessoas e narradas de fora para dentro.

É nesse contexto que o “Poranga Marandúa: Manual de Redação do Jornalismo Indígena” chegou a Roraima. O lançamento ocorreu na noite de quinta-feira (20), no Auditório do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Fronteiras (PPGSOF) da Universidade Federal de Roraima (UFRR), em Boa Vista. O evento foi realizado pelo Curso de Jornalismo e pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRR (PPGCOM/UFRR), em parceria com a Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (ABRINJOR), e reuniu estudantes do curso de Jornalismo, jornalistas e comunicadores indígenas em um espaço de diálogo sobre o jornalismo indígena no Brasil.

O Manual de Redação do Jornalismo Indígena foi lançado oficialmente em 10 de agosto, na Câmara dos Deputados, em Brasília, em um momento histórico para o jornalismo brasileiro. Construída coletivamente por indígenas jornalistas, a publicação reúne orientações para uma cobertura respeitosa, diversa e plural sobre os povos indígenas, a partir de suas próprias perspectivas, saberes, culturas e realidades.

“O Poranga Marandúa surge justamente para fortalecer esse caminho. Foi elaborado pela ABRINJOR a partir de uma construção coletiva que reuniu jornalistas indígenas de diferentes povos e regiões do país, trazendo suas experiências e perspectivas enquanto indígenas jornalistas”, destacou Adriã Galvão, mestra em Comunicação e representante da ABRINJOR.

Em Roraima, a apresentação do manual ganha um significado ainda mais importante, levando em consideração o crescente número de estudantes indígenas na UFRR e comunicadores indígenas nas comunidades. O Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização que representa 12 etnorregiões no estado, atua através de departamentos, dentre eles o Departamento de Comunicação, formado por profissionais indígenas, que forma os comunicadores da Rede Wakywaa, que atuam diretamente em diferentes regiões e comunidades indígenas do estado.

“O lançamento do Manual é histórico, marca o passado, o presente e o futuro para nós, indígenas jornalistas. É um legado que deixamos para as redações das mídias tradicionais e para os acadêmicos de Jornalismo. O manual chega para fortalecer a nossa ferramenta de luta e o nosso protagonismo enquanto indígenas jornalistas”, afirmou Helena Leocádio, assessora de imprensa do CIR.

Conforme Helena Leocádio, essa presença dentro dos territórios é fundamental para garantir que as histórias sejam contadas por quem realmente as vive. “Nada sobre nós, sem nós, como a gente sempre diz. Nós, enquanto Departamento de Comunicação, fazemos formações com os comunicadores indígenas para que eles possam contar a própria história, a nossa realidade contada por nós, não alguém vindo de fora contar a nossa história, como sempre veio”, destacou Leocádio.

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Helena Leocádio durante a lançamento. (Fotos: Caique Pinho e Ellen Lorrayne- UFRR)

Segundo a jornalista, a proximidade dos comunicadores indígenas com os territórios e as lideranças permite produzir conteúdos a partir das próprias realidades e perspectivas dos povos em seus territórios. As formações em comunicação têm fortalecido esses profissionais, ampliando o domínio de diferentes ferramentas para registrar e divulgar suas narrativas por meio de fotografias, vídeos, textos, redes sociais e outras plataformas que passaram a fazer parte dessa comunicação. Por meio delas, os próprios indígenas podem mostrar suas realidades, denunciar violações, divulgar mobilizações, fortalecer suas culturas e apresentar ao público os conhecimentos e modos de vida que muitas vezes foram retratados pela imprensa a partir de olhares externos. Nesse processo, o comunicador indígena deixa de ocupar apenas o lugar de fonte ou personagem de uma reportagem; ele passa a ser também repórter, fotógrafo, cinegrafista, produtor e narrador de sua própria história.

Para a acadêmica de Jornalismo Luara Sapará, o “Poranga Maranduá” representa uma oportunidade de fortalecimento das narrativas dos povos indígenas, além de contribuir para que estudantes e futuros jornalistas compreendam a importância de respeitar as diversas culturas e maneiras de viver.

“É importante ter acesso a esse tipo de manual, porque a gente aprende não só sobre jornalismo, mas também sobre como contar a nossa própria história. Por muito tempo, fomos personagens de histórias e hoje podemos ser os jornalistas, e o manual traz essas orientações de como produzir ou se direcionar aos povos indígenas, respeitando a nossa diversidade.”

Comunicar, para os povos indígenas, é preservar a memória, fortalecer a identidade, defender o território e garantir que a própria história não seja contada por outros, mas pelas próprias pessoas que a vivem, como resume Helena Leocádio: “Nada sobre nós, sem nós.”

Fotos: Caique Pinho, Ellen Lorrayne (UFRR) e Luara Sapará (Ascom/CIR)

Fonte: https://cir.org.br/post/nada-sobre-nos-sem-nos-jornalismo-indigena-ganha-espaco-em-roraima-com-lancamento-do-manual-de-redacao-do-jornalismo-indigena