Audiência Popular Impactos do Super El Niño no Amazonas. Foto: Cila Reis – comunicação do MAB AM/Alternativo de Petropólis

Por Lígia Apel, assessoria de comunicação Cimi Regional Norte I

Mais de 130 representações da sociedade civil do Amazonas traçam estratégias para enfrentamento do maior fenômeno de afetação das mudanças climáticas em 2026

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e suas parceiras, instituições de pesquisa e defesa hídrica brasileiras, confirmam a configuração do El Niño para os próximos meses em seu Boletim nº 2 sobre o Painel El Niño 2026-2027: “Os modelos indicam probabilidade de 100% de permanência do fenômeno até, pelo menos, o início de 2027, com alta probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte, quando as anomalias/desvios de Temperatura da Superfície do Mar (TSM) no Oceano Pacífico Equatorial poderão ficar acima de 2,0°C”. O alerta do Boletim indica que o fenômeno trará mudanças climáticas extremas para todo o continente.

Essas pesquisas científicas são realizadas através de medições e monitoramentos por satélite, boias oceânicas e sensores marítimos, análises atmosféricas, índices e modelos climáticos e outras tecnologias e métodos científicos que fornecem dados importantes e que confirmam o que a população sente, vê, observa e se preocupa. Tais observações e preocupações foram trazidas para a Audiência Popular Impactos do Super El Niño no Amazonas, realizada no dia 10 de agosto, no auditório Belarmino Lins, da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), pelos movimentos sociais de Manaus e entorno.

Se uniram na busca conjunta de soluções para o enfrentamento da seca extrema, que chega trazendo mudanças drásticas nas dinâmicas do clima e das águas amazônicas, mais de 130 representantes de povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, ribeirinhos, quilombolas, agricultores e agricultoras familiares, pescadores e pescadoras artesanais, moradores das periferias urbanas, mulheres, juventudes, movimentos sociais, pastorais, organizações da sociedade civil, universidades e instituições de pesquisa, e atores sociais de ampla abrangência e credibilidade.

“Trazer a realidade dos territórios, ouvir as pessoas que vivem neles, as demandas concretas que têm”

Audiência Popular Impactos do Super El Niño no Amazonas. Foto: Cila Reis – comunicação do MAB AM/Alternativo de Petropólis

O segundo semestre do ano, na Amazônia, é a estação da vazante. As chuvas diminuem, os rios baixam seus níveis e a temperatura se eleva. Essa é uma normalidade da dinâmica hídrica amazônica. Mas, nos últimos anos, ciência e conhecimentos tradicionais têm apontado e alertado severas mudanças nessas dinâmicas. Alterações significativas vêm ocorrendo no ciclo das chuvas, intensificando e prolongando as vazantes dos rios e demais corpos d’água e, portanto, comprometendo o abastecimento de água para pessoas, agricultura e ecossistemas. Com um super El Niño, se agrava ainda mais.

Os anos de 2023 e 2024 foram críticos, com uma seca histórica sem precedentes, que trouxe situações de extrema vulnerabilidade, isolamento e sofrimento para a comunidades, especialmente as mais distantes. Entre os graves problemas estão o desabastecimento de água e alimentos e doenças decorrentes da ausência de transporte e acesso às equipes de atendimento.

Em 2026, o super fenômeno pode trazer situações tão ou mais desastrosas. Foi com os olhos e as preocupações voltadas para as experiências daqueles anos que a Audiência Popular se debruçou. O encontro se propôs a ser um espaço de escuta para conhecer as realidades das comunidades e como elas estão enfrentando esse momento de ameaças. “Balizados pelas experiências dos anos de 2023 e 2024 e sabendo que as comunidades não se recuperaram 100% dos efeitos daqueles momentos, entendemos que é preciso ouvi-las. O super El Niño está aí, e as mazelas que já estavam presentes nos territórios vão se intensificar”, alertou o representante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Isaac Lima.

Ele apontou, também, a importância da escuta: “Trazer a realidade dos territórios, ouvir as pessoas que vivem neles, as demandas concretas que têm. E, também, ouvir o que já estão fazendo, que tecnologias sociais já realizam e que ideias têm, para a gente saber estruturar uma demanda concreta [de políticas públicas], pautada de fato na realidade”.

“A gente colocou o que realmente vive para que as políticas públicas possam chegar até nós”

Audiência Popular Impactos do Super El Niño no Amazonas. Foto: Cila Reis – comunicação do MAB AM/Alternativo de Petropólis

Mirele Sateré Mawé, da Aldeia Gavião, bairro Tarumã Açu, em Manaus, apresenta a realidade da sua comunidade que já sente os efeitos do super El Niño. “A estiagem desse fenômeno já está gerando muito impacto, já está faltando água potável, a alimentação está ficando escassa, as famílias mais vulneráveis já estão sem condições de sair de casa, porque ficam distantes de acesso para buscar saúde e remédios”.

“Quem trabalha com a agricultura familiar tem que enfrentar altas temperaturas, fica difícil molhar as plantações. Aonde moro fica difícil pescar porque o canal está raso. Para buscar alimentação é preciso andar por duas horas, puxar canoa e só então chegar na parada de ônibus para poder ir na cidade. O caminho é de areia, lama que atola. Não está fácil”, explica Mirele, contando que na aldeia estão tentando economizar feijão plantado e banana pacovã, que “é preciso sair longe para pescar ou ir no mato caçar” e que vai ser preciso abastecer a comunidade com água potável.

As mesmas dificuldades com a estiagem severa que vêm com as mudanças climáticas e o super El Niño são contadas pelo tuxaua Jair Maraguá, da Terra Indígena (TI) Maraguá Pajy, em Nova Olinda do Norte, e considera que a importância da audiência popular está na força que adquirem quando unem vozes, experiências e ações. “Conhecendo as realidades, os sofrimentos e as estratégias de luta, todos se fortalecem. A gente colocou o que realmente vive para que as políticas públicas possam chegar até nós. O nosso povo [Maraguá] vive em quatro calhas de rios e em todas as comunidades há grande sofrimento com as estiagens”, relatou.

“O rio Paraconi, o Urariá, o Curupira e o próprio Abacaxis são rios que secam rápido, e os parentes tem que fazer uma volta muito grande para chegar na cidade. Não têm transporte, não tem como sair a não ser de canoa. Vamos viver tempos difíceis”, explicou Jair, apontando com preocupação a chegada do super El Niño. Mas também apontou que os problemas podem ser resolvidos com políticas competentes, “desde que cheguem para as populações antes das dificuldades aumentarem. Basta o poder público ouvir e traçar planos de abastecimento e assistência”, falou.

“Queremos que os órgãos públicos deem respostas, apesar de termos visto que não tinham muito o que responder aos problemas que as comunidades apresentaram”

Audiência Popular Impactos do Super El Niño no Amazonas. Foto: Cila Reis – comunicação do MAB AM/Alternativo de Petropólis

Concordando com Jair, a secretária executiva da Cáritas Arquidiocesana de Manaus, Daniele Rodrigues da Silva, relatou que a audiência foi um espaço de escuta e diálogo sobre as realidades, mas acima de tudo, de “cobrança aos órgãos públicos que são responsáveis por encaminhar as demandas”.

“Queremos que os órgãos públicos deem respostas, apesar de termos visto que não tinham muito o que responder aos problemas que as comunidades apresentaram. Nos pareceu que não têm um plano que possa ser executado quando chegar a grande seca”, avaliou Daniele. “O que funcionou foi que todas as lideranças falaram e colocaram suas realidades, suas demandas e as necessidades que estavam representando. Estavam oito ou nove municípios representados, além das comunidades de Manaus. Geralmente eles [poder público] falam e vão embora, mas dessa vez as comunidades falaram primeiro, eles ouviram”, enalteceu, destacando que prefeitura, governo do estado e federal têm ações de assistência planejadas, mas de abrangência limitada, sem alcançar todas as que precisam.

A secretária também destacou que o coletivo formado pelas organizações e comunidades “vai acompanhar e saber para onde é que essa assistência está indo, que comunidades estão recebendo a assistência. E que se tem recursos, vamos verificar para onde está indo e quais são as comunidades contempladas”, afirmou.

“só quem vive as mazelas nos territórios é que tem que estar na centralidade, construindo as políticas públicas, sem outras pessoas falarem por eles”

Audiência Popular Impactos do Super El Niño no Amazonas. Foto: Cila Reis – comunicação do MAB AM/Alternativo de Petropólis

A perspectiva é compartilhada por Isaac, que comenta a necessidade de o poder público ser mais abrangente e atender todas as comunidades, não apenas as que estão em seu radar e não só depois da chegada do momento crítico. “Fazer um processo de incidência mais firme junto ao poder público e com os acompanhamentos necessários para que não beneficie somente as comunidades identificadas nos levantamentos próprios. Levar essas políticas públicas a todo o território amazônico, chegar mais longe. Recursos tem para fazer o trabalho, só que precisa ser feito de forma antecipada, não tem que esperar secar para fazer o que precisa ser feito”, alertou.

Lembrando do Plano Clima que o estado do Amazonas já possui e que os órgãos dizem estar em construção, Isaac insistiu na afirmação de que “só quem vive as mazelas nos territórios é que tem que estar na centralidade, construindo as políticas públicas, sem outras pessoas falarem por eles”, reiterou, opinando que “só assim os trabalhos têm sustentação e efetividade”, ao invés de implementar apenas arranjos paliativos. “Abastecimento de água com poços artesianos, sistemas comunitários de água com ligação para todas as casas, ampliação das equipes e estruturas de saúde, serviços de assistência, transporte, produção de alimentos e muitas outras necessidades” foram pontuadas por Isaac com base no que os participantes trouxeram para o debate enquanto realidades vivenciadas e que necessitam com urgência.

A “crise climática vai continuar”, afirma Isaac, “esses eventos [em função das mudanças climáticas] vão ser cada vez mais sistemáticos e não dá para fazer o que precisa ser feito só quando o rio já está seco, quando a situação já está crítica”, pondera, responsabilizando o modelo produtivo em larga escala do agronegócio, agrícola e pecuária, que desmata indiscriminadamente e usa e abusa de agrotóxicos, como fator preponderante nas mudanças climáticas.

“A gente está apontando a agricultura familiar como a opção para barrar a questão climática, porque não dá para continuar com esse modelo produtivo desse jeito, onde o lucro é gerado em detrimento da vida das pessoas. Nossa busca é uma opção econômica contrária ao agronegócio exportador, mas de fortalecimento da agricultura familiar, do extrativismo, da sociobiodiversidade, mais crédito para as famílias, assistência técnica, projetos de irrigação nas áreas de plantio, acesso a água e a mercados da pesca artesanal. Uma economia pautada na nossa realidade, que fortaleça a economia interna e gere alimento saudável. Pra isso precisamos participar das decisões políticas do nosso Amazonas”, concluiu.

“Que a Amazônia permaneça viva”

Audiência Popular Impactos do Super El Niño no Amazonas. Foto: Cila Reis – comunicação do MAB AM/Alternativo de Petropólis

Na sequência dos debates e com as demandas na cabeça e no coração, as organizações e representantes das comunidades saíram pelas ruas de Manaus levando suas reivindicações para a sociedade, ecoando seus problemas: famílias que ficam isoladas quando os rios baixam; moradores que caminham horas para acessar serviços de saúde; comunidades sem água potável; agricultores que perdem produção por falta de chuva e irrigação; pescadores afetados pela redução dos peixes; territórios ameaçados por queimadas, degradação das nascentes e atividades econômicas.

Elencaram as mazelas em um Manifesto, afirmando que a crise climática já é uma realidade: “Na Amazônia, [o super El Niño] manifesta-se em secas severas, enchentes, queimadas, calor extremo, fumaça, insegurança hídrica e alimentar, perda da biodiversidade e agravamento das desigualdades. Seus impactos atingem especialmente os povos e comunidades que historicamente protegem as florestas, os rios e os territórios”, descrevem no manifesto, apontando as reivindicações e soluções, onde a participação das comunidades é condicionante na resolução dos problemas e na efetividade das ações.

Ao final, sistematizaram as reivindicações em cinco pontos vitais:

“Que os planos [de amparo às comunidades] sejam executados.
Que os recursos cheguem aos territórios.
Que as comunidades sejam ouvidas.
Que os povos sejam respeitados.
Que a Amazônia permaneça viva.”

Fonte: https://cimi.org.br/2026/08/audiencia-popular-super-el-nino-amazonas/