Assembleia Geral da AMIRMO reuniu lideranças de 12 comunidades na aldeia Mapuera (Foto: equipe Iepé)
Fundo de Artes e Artesanatos foi oficializado durante a Assembleia Geral, que também regulamentou o Fundo da Pimenta. Encontro reuniu mais de uma centena de mulheres indígenas na aldeia Mapuera
A Associação das Mulheres Indígenas da Região do Município de Oriximiná – AMIRMO foi a primeira organização feminina criada no Território Wayamu, em 2015. Desde então, vem fortalecendo a governança feminina na região, em especial no rio Mapuera, abrangido por três Terras Indígenas: Nhamundá-Mapuera, Trombetas-Mapuera e Kaxuyana-Tunayana. Entre os dias 16 e 20 de agosto, durante a Assembleia Geral 2026, as mulheres consolidaram alguns avanços.
A Assembleia Geral 2026 aconteceu na aldeia Mapuera e contou com a participação de aproximadamente 130 lideranças e jovens provenientes de 12 aldeias. Foram cinco dias de muitos cantos, danças e debates sobre pautas de especial interesse delas, e que contribuem para o bem-viver de todos.
Marlucia Gomes da Silva, idealizadora e fundadora da associação, encerrou um ciclo de mais de uma década como presidenta, à frente dos trabalhos, e ressaltou a importância de se realizar o encontro justamente na aldeia Mapuera. “Estamos aqui na maior aldeia da nossa região, a aldeia mãe, onde a associação de mulheres nasceu, para discutir o que a gente quer para as nossas comunidades. Eu sempre lutei e luto por essa associação”, afirmou.

A programação já começou com a celebração de uma conquista: a inauguração da umana (casa grande) das mulheres, construída na aldeia Mapuera com o apoio do Iepé. O espaço abrigou a Assembleia e servirá a outros encontros, reuniões e oficinas voltadas ao fortalecimento político e cultural das mulheres, à produção de artes e artesanatos e ao manejo de produtos da floresta.


Como de costume nas assembleias, uma das pautas de destaque foi a prestação de contas das atividades realizadas e recursos geridos, levando em conta o período de 2024 a 2026. Foram detalhados os projetos executados pela associação e os apoios recebidos do Iepé. Além disso, as mulheres trabalharam em trechos do estatuto da associação que precisavam ser atualizados, e para aprovar o regimento interno, sob a orientação da consultora Nefertiti Hass. Esses processos ampliaram os entendimentos sobre como a organização funciona e que tipo de regras precisa seguir, além de estabelecer acordos internos.
Os processos de produção e precificação das keweyu, saias frontais de algodão e miçangas ou sementes das mulheres, também foram pontos de pauta. A AMIRMO apresentou os recursos obtidos com as vendas das peças e também com as vendas da pimenta em pó Asîsî, que possui o selo da Rede Origens Brasil, e é um dos principais produtos comercializados pelas mulheres do Território Wayamu.
Fundo Urutu de Artes e Artesanatos e Fundo da Pimenta Asîsî
Outro momento importante foi a oficialização de dois fundos voltados ao fortalecimento das mulheres: o Fundo Urutu, de artes e artesanatos; e o Fundo da Pimenta Asîsî. A estratégia vinha sendo discutida e amadurecida por elas há alguns anos e, com a assembleia, os fundos passaram a ser regulamentados.
A criação de mecanismos financeiros próprios é uma tendência entre as organizações apoiadas pelo Iepé no Tumucumaque e no Wayamu, e constitui uma importante ferramenta para ampliar a autonomia das organizações e impulsionar novas conquistas.
Para batizar o Fundo de Artes e Artesanatos, as mulheres sugeriram várias palavras na língua wai wai e, após amplo debate, foi escolhido por aclamação o nome Urutu. Ele faz referência a um recipiente tradicional utilizado pelos povos indígenas que vivem no rio Mapuera, fabricado com espécies de cabaça de tamanho grande. O objeto tem como característica marcante um pequeno orifício feito em sua parte alta, que permite o maior aproveitamento do seu espaço interno para armazenamento de materiais.
Justamente por seu tamanho, tal orifício pequeno também dificulta o acesso visual e físico ao interior do urutu, razão pela qual esse recipiente é simbólico para guardar e proteger água e objetos de valor, entre eles o dinheiro. Esse nome foi sugerido e escolhido pelas mulheres para expressar a natureza e o objetivo do fundo, uma reserva de recursos a ser alimentada para utilização futura, em momento oportuno, para finalidades especiais que beneficiem a coletividade.

Para Darcilene Wai Wai, a oficialização dos dois fundos deve ser celebrada. “Fico muito feliz, eles serão importantes para que a gente possa avançar mais junto com as mulheres de todas as aldeias do rio Mapuera”, comentou. “Precisamos segurar as mãos umas das outras. Sozinha a gente não avança, mas unidas somos mais fortes e podemos ir muito longe”.
Cartas aos órgãos governamentais
Durante a assembleia, as lideranças também elaboraram cartas destinadas a órgãos públicos e parceiros governamentais, como a Funai, o DSEI Guatoc, a Secretaria de Estado de Educação do Pará (Seduc-PA), a Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná (Semed) e a Prefeitura de Oriximiná, reunindo as principais demandas das comunidades. As lideranças debateram as pressões que as Terras Indígenas onde estão localizadas as aldeias do rio Mapuera vêm sofrendo, especialmente com o avanço do garimpo e do turismo ilegal de pesca. Ao final da assembleia, os principais encaminhamentos foram formalizados nas cartas, que serão enviadas aos órgãos competentes.
Nova diretoria
A assembleia terminou com a eleição de uma nova diretoria para ficar à frente da gestão da AMIRMO até 2030. Houve um momento de preparação baseado na revisão das regras eleitorais e atribuições da diretoria no Estatuto. Duas chapas se candidataram, e um urutu, o mesmo que agora dá nome ao fundo, foi usado para conter os votos.
A jovem Raiana Wai Wai, diz que momentos como esse são muito importantes. “Vejo que todas as mulheres são fortes, fizeram o fundo delas e uma eleição. Acho muito incrível. Que isso nos deixe mais fortes ainda”, destacou, reforçando que as meninas e jovens têm que participar cada vez mais desses momentos para aprender com as mais velhas e continuar esse legado.
A presidenta que deixa o cargo, Marlucia Gomes da Silva, foi a idealizadora e fundadora da AMIRMO, e esteve à frente da associação por mais de uma década. Ela desejou um bom trabalho à nova equipe. “Eu quero que a nova gestão continue trabalhando para trazer mais melhorias para o território”, afirmou. “Deixo aqui minha palavra para as moças, crianças e mulheres: que não desistam, que continuem buscando projetos para nossas aldeias e para fortalecer a nossa associação”, completou.

Foram eleitas para o próximo período Roseana Cinama Wai Wai como presidenta; Eliane Woxixaki Wai Wai como vice-presidenta; Abelina Muxu Wai Wai como secretária; Nildiane Witiya Wai Wai como segunda secretária; Liciane Wocari Wai Wai como tesoureira; e Terezina Nataxa Wai Wai como segunda tesoureira.
A Assembleia Geral da AMIRMO 2026 foi apoiada pelo Iepé e pelos parceiros Nia Tero e Bezos Earth Fund. Também contou com recursos do projeto Kar̂pe ehtopo wooxam komo – Fortalecendo as mulheres indígenas do rio Mapuera, aprovado pela AMIRMO na 3ª Chamada do Podáali “Guardiãs da Amazônia: Mulheres Indígenas que defendem as Vidas e a Justiça Climática”.
Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/08/amirmo-elege-nova-diretoria-e-aprova-regimento-do-fundo-urutu/
Comentários