O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena – Divulgação
- Os conhecimentos indígenas são também contemporâneos e políticos
- Com sede em Brasília, instituição começará a funcionar no próximo ano
Txai Suruí
Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé
Nesta quinta-feira (28), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que cria a Universidade Federal Indígena (Unind), primeira instituição de ensino superior do Brasil concebida para e pelos povos originários.
A criação da Unind deu-se por meio da articulação entre o Ministério dos Povos Indígenas, o Ministério da Educação, a Funai e as organizações e lideranças indígenas, que contribuíram para a concepção de uma instituição voltada às realidades e demandas dos territórios. Com sede em Brasília e estrutura multicêntrica, para alcançar diferentes regiões do país, seu início está previsto para 2027. O projeto foi aprovado sem alterações no Senado em maio, após ampla tramitação na Câmara dos Deputados.
A criação da Unind não é apenas um fato administrativo ou legislativo. É um marco histórico, que confronta séculos de epistemologias coloniais e pode reconfigurar o sentido da universidade no Brasil.
Como destacou o ministro Luiz Eloy Terena em seu discurso na solenidade de sanção, “esta universidade que hoje será criada é um grande sonho das nossas lideranças, fruto de decisão política dos nossos caciques, que elegeram como estratégico doutorar seus filhos, ocupar as universidades e travar a luta por direitos com a caneta”.
O ingresso dos indígenas nas universidades trouxe novos paradigmas na luta, com novas formas de defesa, como a formação de advogados indígenas e outras profissões.
Diferentemente de políticas assistencialistas ou inclusivas limitadas —que hoje são fundamentais, mas insuficientes—, a Unind propõe uma inversão estrutural: não se trata de incluir indígenas em modelos universitários coloniais, mas de transformar a própria universidade a partir de cosmologias, línguas, territorialidades e formas de produção de conhecimento que são historicamente subalternizadas.
Por muito tempo, os saberes originários foram tratados pela lógica colonial como inferiores, exóticos ou meramente “tradicionais”. Agora se traz uma nova forma de tratar o conhecimento indígena, que passa por reconhecer que ele não é apenas “tradicional” ou “ancestral”, mas também contemporâneo, político, científico e fundamental para enfrentar os desafios do presente.
A Unind vem para romper essa hierarquia. Como afirmou o ministro Eloy em seu discurso, “não existe hierarquia entre os ditos saberes científicos e os saberes tradicionais, oriundos do chão da aldeia, dos povos de terreiro e das periferias da cidade”.
Os conhecimentos indígenas são também contemporâneos e políticos: produzem ciência na gestão territorial, na prevenção de queimadas, na fitoterapia, no manejo da biodiversidade, na governança comunitária. São respostas vivas a problemas globais, como mudanças climáticas, crises sanitárias e degradação ambiental. Ao reconhecê-los como epistemologias legítimas, a Unind não apenas valoriza o passado como legitima um presente de produção intelectual autônoma.
Mais do que incluir indígenas nas estruturas existentes, trata-se de transformar as próprias estruturas do conhecimento, construindo um diálogo mais horizontal entre diferentes formas de saber e imaginar o futuro.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/05/uma-universidade-para-transformar-a-universidade.shtml
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