A Floresta Nacional de Altamira, no Pará, perdeu mais cobertura florestal em 2019 do que durante os 18 anos anteriores juntos, segundo dados de satélite da Universidade de Maryland. Criada em 1998 numa área de 725 mil hectares, ela se tornou a maior área de concessões florestais do Brasil, com a extração licenciada de madeira, cumprindo a sua razão de ser: impulsionar a economia local com o mimo de impacto sobre a biodiversidade.

Na sua parte sul, como de regra, o desmatamento ilegal para a agropecuária vem se intensificando, conforme constatou Ana Ionova para a organização ambientalista Mongabay. Mas a principal causadora do desmatamento e das agressões à natureza é a mineração praticada por garimpos ilegais. É uma ameaça direta à finalidade da Flona, que era considerada um marco na silvicultura brasileira, uma esperança de viabilizar o desenvolvimento sustentável na Amazônia.

As imagens de satélite atestam que cerca de 300 hectares foram desmatados entre janeiro e outubro do ano passado apenas para mineração, de acordo com Thaise Rodrigues, especialista em sensoriamento remoto da Rede Xingu+, formada por grupos ambientalistas e indígenas que trabalham na região, ouvidos por Ionova.

Esse valor representa um aumento de 85% em comparação com o ano anterior, como mostram os dados da rede. Parte da pressão veio de um vasto desmatamento na fronteira oeste do território, onde uma pista de pouso e decolagem clandestina foi construída entre maio e junho de 2019, para dar apoio à atividade de extração, informou Thaise.

“Fontes locais dizem que a maioria dos garimpeiros que invade a Flona de Altamira está atrás da cassiterita, principal minério de estanho. Garimpeiros em busca de ouro, agropecuaristas e madeireiros à procura de variedades valiosas de árvores também estão presentes na região. Além disso, alguns dos invasores têm aberto estradas clandestinas para transportar minerais e madeira para fora da floresta”, relata a autora da matéria.

As declarações do presidente Jair Bolsonaro em favor da atividade garimpeira e da mineração em geral, tanto nas unidades de conservação da natureza quanto em terras indígenas, estimulou a invasão das áreas públicas, tanto na Flona de Altamira quanto na de Jamanxim, que fica ao sul. Novos usos para o estanho, de celulares a pastas de dente, incrementaram a demanda e elevaram o preço do minério, exercendo pressão sobre as minas, especialmente a cassiterita, de extração mais barata do que a garimpagem de ouro ou de cobre.

Ionova diz que há mais de 450 garimpos ilegais na Amazônia brasileira, de acordo com a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG), o onde trabalham milhares de garimpeiros. A organização estima que 18 reservas indígenas já foram invadidas por garimpeiros ilegais.

Dizia-se, antes desse novo fluxo de caça aos minérios a qualquer preço, que a mineração pode causar um dano profundo no local onde atua, mas a destruição é pontual. Era. Com o incentivo do governo Bolsonaro a toda e qualquer mineração, onde ela esteja, passaremos a ver imagens terríveis como as geradas pelo satélite de Maryland. Ou rever. Porque já as vimos, em escala menos dramática, no caso específico da cassiterita (o minério do estanho), na década de 1970, em Rondônia.

Era também uma atividade intensamente predatória, porque realizada por milhares de garimpeiros, de forma caótica, anárquica, selvagem. O governo militar prometeu que iria substituí-la pela atividade empresarial organizada. Milhares de garimpeiros foram evacuados da noite para o dia, manu militari, numa operação de guerra, já esquecida.

De fato, aquela garimpagem de cassiterita desapareceu. Surgiu, do outro lado do Amazonas, a lavra mecanizada da Paranapanema, do impulsivo empresário Otávio Lacombe, um dos mais importantes (em qualquer sentido) empresários da mineração no Brasil.

Foi melhor a atividade empresarial do que a garimpeira? Em termos de produção, receita e lucros em dúvida. Mas não a melhor alternativa. Os índios Waimiri-Atroari (se autodenominam Kinja) que o digam, pela voz esmagada de Stephen Baines, expulso da reserva por se opor aos métodos da Paranapanema. E a irrupção de novos garimpos no Pará está aí para confirmar essa migração devastadora.

Ela vai continuar. Quatro dos 20 municípios brasileiros que mais exportaram no mês passado ficam no Pará, segundo os dados divulgados pelo Ministério da Economia. A soma das vendas ao exterior de Canaã dos Carajás (o 3º município do ranking, com 622 milhões de dólares), Marabá (4º, com US$ 513 milhões), Parauapebas (5º, com quase US$ 500 milhões) e Barcarena (18º, com US$ 158 milhões) alcançou US$ 1,8 bilhão (quase 10 bilhões de reais, o equivalente a um terço do orçamento do Estado previsto para todo este ano) de um total de US$ 7 bilhões de exportações do Brasil em fevereiro.

A retração nos embarques para a China de minério de ferro, o principal item da pauta, tirou Parauapebas do 1º lugar no ranking nacional. As vendas de cobre e níquel compensaram parcialmente essa perda, fazendo Canaã e Marabá superarem o município que ainda é a principal base da Vale, dona de todos esses minérios. E, por que não dizer, do Pará?
 

Fonte: https://amazoniareal.com.br/os-novos-hunos/

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