Eliane Trindade

Editora do prêmio Empreendedor Social, editou a Revista da Folha. É autora de “As Meninas da Esquina”.

Parceria da startup Água Camelo e Ambev leva acesso a água tratada a comunidades da Amazônia, parte de programa que deve beneficiar 1 milhão de brasileiros até 2025

SÃO PAULO

O grupo levou cerca de 20 horas para chegar à aldeia Mutum, na terra indígena Yawanawá no Acre.

O avião partiu de São Paulo por volta de 1h da madrugada do sábado (10), mas não conseguiu pousar quatro horas e meia depois em Cruzeiro do Sul, por falta de teto.

O jeito foi esperar na capital Rio Branco a liberação para desembarcar no destino e seguir viagem de carro e barco.

“Foi uma aventura. Estávamos numa caravana de sete pessoas saindo de São Paulo e nos juntamos aos outros cinco lá”, relata Carla Crippa, vice-presidente de Impacto Positivo e Relações Corporativas da Ambev para América do Sul.

Criança indígena da aldeia Mutum, no Acre, bebe água de filtro portátil distribuído na comunidade pelo projeto-piloto da Água Camelo em parceria com a Ambev – Gabriel Tesserolli/Divulgação

À frente do time da companhia na expedição, a executiva acompanhou a visita in loco ciceroneada por João Manuel Piedrafita, cofundador da startup Água Camelo, parceiro da Ambev em um projeto que leva água potável para comunidades indígenas da região.

Para a turma chegar à aldeia foram mais duas horas de estrada até pegar um barco para encarar outras sete horas rio acima.

“Era uma BR, a mais esburacada que vi na vida. Tinha impressão de que o carro ia ser engolido pelas crateras”, lembra Carla.

A maior aventura, no entanto, foi subir o rio Gregório numa voadeira, embarcação a motor, principal meio de transporte pelos rios da Amazônia.

“Era para o rio Gregório estar mais cheio nessa época, mas a chuva não chegou no volume esperado. Nosso barco teve dificuldade de passar, em várias momentos”, conta Rafaela Prieto, gerente de comunicação da Ambev.

“Foi um baita percurso lindo”, emenda Carla. Ela ouviu de uma liderança local a melhor definição da experiência: “Agora é a floresta que está no comando”.

A expedição só chegou ao destino às 21h. O grupo foi brindado com uma noite de lua cheia e o acolhimento na casa da pajé. “Ficamos muito bem acomodados”, diz Carla, que havia imaginado dormir em rede.

No dia seguinte, puderam ver de perto o impacto do projeto da Água Camelo, selecionada pela Aceleradora 100+, programa de inovação aberta da Ambev.

“O intuito da viagem era conhecer a aplicação desse piloto do nosso parceiro na ponta”, diz a executiva, sobre a oportunidade de ir além dos relatórios, prestações de contas e as imagens recebidas do trabalho desenvolvido pela startup.

Em novembro de 2021, foi dada a largada neste piloto com o objetivo de validar a solução simples e barata de acesso à água potável, associada a uma metodologia de avaliação de impacto.

Os resultados seriam medidos a partir da distribuição de 100 kits da Água Camelo, compostos de filtro portátil no formato de bolsa, suporte de parede e manual de uso e manutenção: 25 foram destinados à aldeia Mutum e os 75 restantes ao Morro da Providência, no Rio,

É uma contradição ter essa grande quantidade de água doce na Amazônia, mas não ser tratadaJoão Manuel Piedrafita

cofundador da startup Água Camelo

“Antes da chegada do kit, 96% dos indígenas relataram doenças de veiculação hídrica. Três meses depois, 100% dos usuários do filtro portátil não relatavam mais nenhum mal associado à ingestão de água não tratada”, descreve o cofundador da Água Camelo.

Sinal verde para ampliar o projeto nas 13 aldeias Yawanawá, ao longo do rio Gregório, cujas águas costumam ficar turvas, principalmente no período de cheias, quando se enchem também de resíduos orgânicos e impurezas impróprias para o consumo

“É uma contradição ter essa grande quantidade de água doce, mas não ser tratada”, afirma João Manuel, sobre a realidade de tantas comunidades indígenas e ribeirinhas na vastidão amazônica.

Em março, a união de Água Camelo, Associação Sociocultural Yawanawá e Água AMA, marca da Ambev que destina 100% do lucro para projetos que levam acesso à água potável, permitiu levar mais 153 kits para as outras 12 aldeias, beneficiando 1.200 indígenas na região.

As aldeias passaram a contar também com oito centrais de coleta de água, que são filtros de larga vazão, pensadas como solução comunitária.

Nove meses depois, o acreano João Manuel, 25, voltou mais uma vez à região como guia da expedição com o time da Ambev.

“Foi uma felicidade mútua fazer essa ponte entre a AMA e a comunidade local, pois era um grande desafio de logística levar o alto escalão da empresa para conhecer na ponta as dificuldades hídricas vividas dentro da floresta”, diz João Manuel.

O empreendedor social mora no Rio de Janeiro, onde se graduou em design e fundou a startup com a qual se reconectou com o povo indígena que conheceu na infância por meio do trabalho do pai antropólogo.

A imersão no Acre foi uma chance de Carla e equipe Ambev vivenciar os impactos de um programa que chega a Amazônia depois de já ter beneficiado 500 mil pessoas, desde 2017, com múltiplos parceiros.

“Abrimos no ano passado um novo escopo que é a Amazônia.”, explica a vice-presidente. “Mas temos projetos no semiárido, por exemplo, uma realidade muito diferente, onde levamos água para uma população que convive com escassez há séculos.”

Na floresta, o problema é outro. “Ali, as pessoas estão cercadas de água, só que sem ser tratada vira causa de diarreia e de outras doenças de veiculação hídrica”, ressalta Carla.

Ela conta o relato de uma liderança indígena sobre a perda recente de um bebê na aldeia por diarreia. “É um problema real”, afirma. “Com a chegada dos filtros e da caixa d’água comunitária é bem impressionante a redução dos índices absurdos destas doenças nas aldeias.”

Impacto comprovado que reforça o desejo de expandir o projeto para outros territórios na Amazônia.

Com o lucro obtido nas vendas de AMA, mais de R$ 9 milhões foram direcionados para mais de cem projeto sociais.

Nos propomos a ajudar a resolver o problema da falta de acesso à água potável que afeta 30 milhões de brasileirosCarla Crippa

Vice-presidente de Relações Corporativas da Ambev

A perspectiva é dobrar o número de impactados, chegando a 1 milhão de pessoas em todo o Brasil até 2025.

É o consumidor que decide comprar a água AMA que viabiliza os projetos, bancados com estes recursos”, frisa a executiva.

Do semiárido brasileiro aos desertos urbanos e comunidades vulneráveis em São Paulo, 103 ONGs e startups de impacto social já foram apoiados pela AMA.

Em 2020, chegou em São Paulo com filtros de barro, distribuídos à população vulnerável de Ferraz de Vasconcelos, Arujá, Itaquaquecetuba, Salesópolis e Suzano. Já bancou também a construção de 39 cisternas no sertão.

Com a Central Única das Favelas (Cufa), instalou bebedouros públicos para a população de Heliópolis, Paraisópolis e Jardim Conquista, comunidades da Zona Sul de São Paulo.

“Temos um objetivo claro: levar água para quem não tem”, afirma Carla, ainda sob o impacto da viagem ao Acre.

Ela resume o que de mais importante trouxe na mochila após a expedição de três dias. “A Ambev é uma empresa de bebidas. Entendemos a relevância da água e nos propomos a ajudar a resolver o problema da falta de acesso que afeta 30 milhões de brasileiros.”

A ideia é usar a estrutura, a capilaridade e a presença da empresa de Norte a Sul do Brasil. “Seja no semiárido, seja nas periferias urbanas ou seja na floresta, que tem tudo a ver com a Ambev. O Guaraná, nossa marca mais icônica, nasceu na Amazônia.”

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/redesocial/2022/12/expedicao-ve-impacto-de-agua-potavel-em-aldeias-indigenas-no-acre.shtml

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