Foto: Maia de Barros
A formação de Agentes Indígenas de Proteção Social (AIPS), realizada entre os dias 21 e 28 de fevereiro, na Terra Indígena Yanomami, na comunidade Maturacá, tem consolidado uma estratégia inovadora de fortalecimento das políticas públicas nos territórios indígenas ao integrar saberes tradicionais e instrumentos do Estado. Voltado a indígenas dos povos Yanomami e Ye’kwana, o curso é realizado em parceria entre a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal de Roraima (UFRR), com o objetivo de qualificar a mediação intercultural no acesso às seguridades sociais, especialmente documentação civil, previdência e Assistência Social.
A iniciativa forma agentes que atuarão como pontes entre comunidades e políticas públicas, e busca superar as barreiras linguísticas, culturais e institucionais. Mais do que intérpretes, os cursistas se reconhecem como tradutores de mundos, em que articulam os conhecimentos indígenas aos serviços e programas do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) com base no protagonismo indígena.
O curso, com carga horária de 640 horas, com previsão de encerramento para dezembro de 2026, adota uma metodologia pluriepistêmica, centrada nos saberes indígenas e na pedagogia da alternância, que articula momentos de formação teórica e vivências práticas nas comunidades. A proposta reconhece os participantes como detentores de saberes indígenas, valorizando suas experiências e conhecimentos como fundamentos legítimos da proteção social.
Vínculos, espiritualidade e bem viver
O quarto módulo da formação aprofundou o debate sobre vínculo, espiritualidade e bem viver nos contextos dos povos Yanomami, Ye’kwana, Ninam, Sanöma, Yanomae, Yãroamë e Yanomama (Terra Indígena Yanomami), com foco em dimensões culturais, territoriais e institucionais da proteção social. Ao longo do período, foram promovidas rodas de conversa, atividades práticas e trabalhos em grupo que exploraram conceitos como família, parentesco e redes de cuidado, compreendidos nos contextos culturais de cada povo, incluindo dimensões espirituais e comunitárias.
A programação abordou os ciclos de vida e ritos de passagem — como nascimento, menarca e luto — como elementos centrais da organização social e da proteção coletiva, além de refletir sobre o conceito de bem viver a partir das cosmovisões indígenas, em contraste com indicadores convencionais de vulnerabilidade, tendo em vista o contexto de floresta e os vínculos com animais e território.
A gerente de projetos sociais da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec), Stélia Braga, destacou a importância do módulo ao integrar saberes indígenas às políticas públicas. “Este tempo de formação oportunizou a troca de saberes, como ritos de passagem e espiritualidade, aos fundamentos legais da proteção social, em que realizamos diálogos e aulas sobre o Sistema Único de Assistência Social e sobre o Sistema Único de Saúde. O módulo também evidenciou a importância de uma escuta que respeite as sabedorias indígenas como forma de proteção social”, afirmou.
O módulo também integrou conteúdos sobre os marcos legais da Assistência Social e da Saúde, com estudos sobre o SUAS e o SUS, destacando ações como o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV). As atividades incluíram simulações de atendimento intercultural e debates sobre a adaptação dessas políticas às realidades dos territórios indígenas, com foco na escuta qualificada e no respeito aos saberes destes povos.
Proteção social a partir dos territórios
A formação reafirma que a proteção social nos territórios indígenas não se limita às estruturas institucionais, mas se fundamenta em práticas comunitárias, espirituais e intergeracionais. O curso valoriza o papel de lideranças, anciãos e mulheres como mestres e mestras tradicionais, tornando-os agentes centrais nas redes de cuidado e na transmissão de conhecimento, promovendo uma abordagem que integra território, cultura e políticas públicas.
Ao final do módulo, os cursistas debateram caminhos para adaptar as políticas de Assistência Social às especificidades dos povos da Terra Indígena Yanomami e Ye’kwana, o que reforça a necessidade de uma atuação estatal que respeite a diversidade cultural e fortaleça a autonomia dos povos indígenas no território.
A iniciativa representa um avanço na construção de políticas públicas equitativas e interculturais, ao reconhecer os povos indígenas como protagonistas junto aos profissionais do SUAS na formulação e implementação de estratégias de proteção social em seus próprios territórios.
Coordenação de Comunicação Social/Funai.
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