Foto: Débora Costa
O Museu Nacional dos Povos Indígenas (MNPI), órgão científico-cultural da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), promoveu o Seminário “Direito à Memória: Experiências de Salvaguarda de Línguas e Culturas Indígenas”. O evento foi realizado nos dias 27 a 29 de abril no Centro Audiovisual (Caud) em Goiânia (GO).
O encontro marcou a conclusão do Projeto de Cooperação Técnica Internacional “Salvaguarda do Patrimônio Linguístico e Cultural de Povos Indígenas Transfronteiriços e de Recente Contato na Região Amazônica”, promovido ao longo de mais uma década de cooperação técnica entre o MNPI e a Unesco para a preservação e revitalização da diversidade cultural indígena no Brasil.
Na abertura do evento, a diretora do MNPI, Juliana Tupinambá, destacou o protagonismo indígena ao longo de todo o projeto: “Essa parceria não teria surtido efeito sem a colaboração direta dos povos indígenas. Se agora temos gramáticas e um imenso acervo digital, é porque houve participação indígena. Se hoje celebramos a disponibilização deste trabalho, é porque os povos indígenas decidiram compartilhá-lo com a sociedade civil. Este é o momento de agradecer e celebrar esses povos que permitiram o acesso a um pouco do seu conhecimento. Nós, povos indígenas, somos a expressão viva do próprio patrimônio cultural das nossas comunidades.”
Além da diretora do Museu, a mesa de abertura do seminário contou com a participação de representantes da Unesco Brasil, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), do Ministério das Relações Exteriores (MRE), do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e da Funai, que discutiram as políticas de Estado e a cooperação internacional para a salvaguarda do patrimônio indígena.
Parceria MNPI e Unesco
Como órgão científico-cultural da Funai, o MNPI tem estabelecido parcerias estratégicas duradouras voltadas à proteção das línguas e culturas indígenas no Brasil. Nas últimas décadas, o trabalho conjunto com a Unesco resultou na formação de pesquisadores indígenas e em registros para desenvolvimento de materiais impressos e novas tecnologias, com especial atenção aos povos indígenas de recente contato e de regiões de fronteira na Amazônia.
Nesse sentido, o seminário promovido teve por objetivo apresentar os resultados e experiências da última década de cooperação técnica internacional entre MNPI e Unesco. Os casos concretos de documentação de línguas e culturas realizados desde 2015, mostraram como a preservação fortalece o direito à memória e à autodeterminação dos povos indígenas.
A diretora da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch, que participou do seminário por meio de vídeo gravado, comemorou a parceria firmada com a Funai e o MNPI e sinalizou a renovação do acordo. “Atualmente estamos construindo uma nova proposta de cooperação técnica e reafirmamos como princípio orientador o protagonismo dos povos indígenas, buscando também ampliar o escopo da nossa parceria ao incorporar temas fundamentais como gestão territorial e impactos das mudanças climáticas”, destacou.
Programação
O evento contou com cinco painéis de discussão que reuniram pesquisadores indígenas, representantes governamentais e instituições de pesquisa para dialogar sobre a salvaguarda do patrimônio indígena.
O primeiro painel abordou a preservação do patrimônio cultural e o direito à memória de povos indígenas isolados e de recente contato, com o devido cuidado ético para equilibrar a proteção de seus territórios e modos tradicionais de vida e o respeito à autodeterminação. A discussão contou com integrantes da Funai, do MNPI e do Observatório dos Povos Indígenas Isolados (Opi).
O segundo debate tratou dos saberes indígenas como patrimônio imaterial e sua relação indissociável com a proteção da biodiversidade presente nos territórios. Participaram da discussão coordenadores de Projetos de Documentação de Culturas Indígenas (Prodocult) do MNPI voltados aos povos Baniwa, Ye’kwana e Bora-Miranha, além de representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A terceira mesa debateu a educação escolar indígena diferenciada e a produção de materiais didáticos como pilares para a revitalização e continuidade das línguas indígenas. O painel reuniu integrantes dos Projetos de Documentação de Línguas Indígenas (Prodoclin) do MNPI, bem como pesquisadores dos povos Iny-Karajá e Pataxó, e da Universidade Federal do Amapá (Unifap).
Um quarto painel focou na pesquisa colaborativa no campo da Linguística e no protagonismo das comunidades na documentação das línguas indígenas. Participaram membros de projetos Prodoclin do MNPI voltados aos povos Arutani-Ninam e Baniwa-Koripako, além de pesquisadoras do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e do povo Sakurabiat.
O último painel explorou o uso de tecnologias digitais como ferramentas acessíveis para a salvaguarda e transmissão do patrimônio linguístico e cultural indígena. A mesa contou com especialistas do MNPI, do MPEG e da Rede Cariniana do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict).
Ao longo da programação do seminário, também foram exibidas três produções audiovisuais desenvolvidas no âmbito do projeto. O documentário Tanaru, da diretora Júlia Mariano, narra a trajetória do último sobrevivente de seu povo, que viveu em isolamento na Terra Indígena Tanaru, em Rondônia. Já o curta-metragem O Caminho do Centro, dirigido por Maria Luisa Lucas, Lionel Rossini e José Cândido Ferreira, registra o reencontro e as memórias compartilhadas entre os indígenas Miranha e Bora na Amazônia Ocidental. Por fim, a produção Japepo, com direção de Pikuruk Kayabi e Aturi Kayabi, documenta a revitalização da cerâmica tradicional entre os Kayabi-Kawaiwete.
Museus indígenas
O seminário encerrou com duas mesas que discutiram “Os museus que queremos: protagonismo indígena e perspectivas para salvaguarda do patrimônio linguístico e cultural indígena”.
Com mediação do professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e integrante da Rede Indígena de Memória e Museologia Social, Alexandre Gomes, as discussões apontaram caminhos para o aprimoramento de políticas desenvolvidas pelo MNPI, seus parceiros e outras instituições a partir de experiências próprias das comunidades.
A composição das mesas incluiu representantes do Museu Kapinawa em Buíque (PE), do Museu Indígena Kanindé em Aratuba (CE), do Museu Pitaguary em Pacatuba (CE), do Museu Jenipapo-Kanindé em Aquiraz (CE), do Museu dos Povos Indígenas em Lagoa de São Francisco (PI), do Museu Magüta em Benjamin Constant (AM), do Museu Kuahi dos Povos Indígenas do Oiapoque (AP), do Conselho Indígena Aty Mirim do Estado de São Paulo e do Projeto Semente das Artes em Boa Vista (RR).
As experiências apresentadas também contribuíram para projetar a consolidação de redes de colaboração entre instituições de pesquisa, comunidades e museus indígenas para a gestão autônoma e salvaguarda do patrimônio cultural pelos próprios povos indígenas.
Coordenação de Comunicação Social/Funai.
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