Indígenas e parceiros se reuniram em Macapá para dia de balanço sobre o projeto (Foto: Maria Silveira – Iepé)
Evento em Macapá evidenciou avanços concretos e impactos do projeto “Nossas Terras, Nossas Aldeias” para os povos indígenas do Amapá e Norte do Pará
Texto: Angélica Queiroz
No dia 29 de abril, representantes do Iepé, organizações parceiras, órgãos de governo e povos indígenas do Amapá e do norte do Pará se reuniram em Macapá, para um momento de trocas sobre o projeto “Nossas Terras, Nossas Aldeias”, realizado durante os últimos quatro anos em parceria com a União Europeia. A iniciativa apoiou dezenas de ações construídas em conjunto com os povos Aparai, Galibi Ka’lina, Galibi Marworno, Hixkaryana, Karipuna, Katxuyana, Palikur, Tiriyó, Waiwai, Wajãpi, Wayana e Zo’é, que vivem em 10 Terras Indígenas distribuídas entre o Amapá e o norte do Pará.
O encontro, que marcou o encerramento do projeto, foi também um espaço para o fortalecimento de vínculos entre representantes de vários povos indígenas de diferentes territórios, equipe do Iepé e parceiros institucionais, com uma programação voltada à troca de experiências, reflexão e aprendizado coletivo. “Esse foi um projeto guarda-chuva, que cobriu todas as nossas áreas de atuação em todos os territórios onde atuamos”, explicou o coordenador executivo do Instituto, Luis Donisete Grupioni. Segundo ele, a iniciativa, estruturada por meio de um edital de longo prazo, apoiou diversos projetos focados na implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e no fortalecimento das organizações indígenas.
A mesa de abertura evidenciou a importância da articulação interinstitucional, com a presença de representantes da Coordenação Regional Amapá e Norte do Pará da Funai, da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas do Amapá do Governo do Amapá (SEPI), do Instituto Federal do Amapá (IFAP), do Ministério da Cultura (MinC) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em suas falas, os parceiros destacaram a relevância do trabalho conjunto como caminho para fortalecer as ações nos territórios indígenas.

Financiamento direto para povos indígenas e outros resultados
Entre os destaques estiveram em pauta os editais de pequenos projetos, que viabilizaram apoio direto para iniciativas propostas pelas próprias organizações indígenas. A experiência foi avaliada como bastante positiva, especialmente como exercício para fortalecer a autonomia dessas organizações e abrir portas para que elas possam acessar outros editais. Um exemplo é a oficina de grafismos tradicionais e contemporâneos dos povos indígenas do Oiapoque, realizada pelo coletivo Waçá-wara no Museu Kuahí, com o apoio de um desses editais. “Foi uma oportunidade de valorizar as pessoas que têm esses conhecimentos e também de organizar um acervo que pra gente é muito importante e abre caminho para outras possibilidades”, afirmou Davi Marworno, representante do coletivo.
Durante os últimos quatro anos, o projeto também apoiou iniciativas voltadas à valorização cultural, à transmissão de saberes tradicionais e ao fortalecimento das identidades indígenas. Um dos destaques foi a realização de oficinas no Tumucumaque Leste, mencionadas durante o evento por Cecília Awaeko Apalai. “Os jovens estavam se afastando dos conhecimentos tradicionais, que são a herança deixada pelos nossos ancestrais”, afirmou. As atividades, conduzidas pela Associação dos Povos Indígenas Wayana e Aparai (APIWA) em parceria com sua articulação de mulheres, a AMIWA, possibilitaram a construção de um dossiê sobre as artes gráficas tradicionais desses povos. Também contribuíram para o fortalecimento das roças, reforçando a segurança alimentar no território.

O projeto também atuou em diversas frentes e regiões para fortalecer os arranjos produtivos nas aldeias, impulsionando a economia da sociobiodiversidade. No Território Wajãpi, apoiou o fortalecimento do Fundo de artesanato e do Fundo agroextrativista (FAW e FAEx), iniciativas da Associação Wajãpi Terra Ambiente e Cultura (AWATAC). Welliton Waiãpi, uma das lideranças locais que prestigiou o evento, explicou que os fundos ajudam a organizar a compra e a venda dos produtos indígenas, seja artesanato, açaí, copaíba ou pimenta, gerando renda para a comunidade e fortalecendo a transmissão de saberes dos mais velhos aos mais jovens. “Para que futuramente esses jovens também repassem esses conhecimentos”, completou.
Outra frente da iniciativa foi justamente a de registrar esses processos de transmissão de saberes, o que foi encarado como mais uma estratégia para valorizar e fortalecer a continuidade dos modos de vida dos povos indígenas. Com esse foco, foram realizadas oficinas de audiovisual com os jovens de diversos territórios, esforço que está no foco de uma série que mostra bastidores de oficinas e encontros na região do Tumucumaque, com oito vídeos disponíveis no Youtube do Iepé.
Confira abaixo mais resultados da parceria entre a União Europeia, o Iepé e as comunidades, povos e organizações do Amapá e norte do Pará entre os anos de 2022 e 2026.
PROGRAMA OIAPOQUE
Instalação de sistemas fotovoltaicos amplia comunicação e fortalece autonomia indígena
Com o apoio do projeto, foram instalados sistemas fotovoltaicos e antenas de internet em aldeias de difícil acesso, ampliando a comunicação e contribuindo para o fortalecimento da proteção territorial, da governança e do atendimento a emergências de saúde. Para garantir maior autonomia às comunidades, o Iepé realizou, em novembro de 2023, um curso de formação voltado à instalação, manutenção e boas práticas de uso dos sistemas. A capacitação reuniu 50 participantes dos povos Karipuna, Palikur, Galibi Marworno e Galibi Kali’na.
Oficinas fortalecem saberes e protagonismo entre povos indígenas do Oiapoque
Diferentes oficinas contribuíram para o fortalecimento dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas do Oiapoque. Em junho de 2023, foram realizadas oficinas de valorização dos artefatos do povo Galibi Marworno, na Aldeia Kumarumã, na Terra Indígena Uaçá. A atividade foi conduzida por 14 mestres e mestras e reuniu cerca de 120 participantes, entre jovens, mulheres e agentes ambientais indígenas. Além disso, foram promovidas oficinas de valorização e troca de conhecimentos entre mulheres indígenas, em parceria com a Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM). Em dezembro de 2024, durante a Assembleia Geral da AMIM, na aldeia Espírito Santo (TI Uaçá), cerca de 230 mulheres dos quatro povos participaram de atividades de troca de saberes, debatendo temas como roças, violência e saúde. Esses espaços contribuíram para fortalecer a organização das mulheres e ampliar seu protagonismo na gestão socioambiental de suas Terras Indígenas.
PROGRAMA TUMUCUMAQUE-WAYAMU
Fundo de artesanato impulsiona autonomia e governança das mulheres indígenas
O fortalecimento da autonomia econômica e organizativa das mulheres indígenas do Tumucumaque Oeste por meio do Fundo de Artes Wëriton Iyeripo é um dos principais resultados do projeto. A iniciativa, construída coletivamente pelas próprias mulheres e implementada em parceria com o Iepé e a Funai, ampliou a produção e a comercialização de artesanato, além de estruturar um mecanismo próprio de gestão de recursos. Nesse processo, tiveram papel central as oficinas de valorização das artes e saberes indígenas, que funcionaram como espaços estratégicos de troca, aprendizado e articulação. Os resultados evidenciam não apenas a geração de renda, mas também o fortalecimento da governança comunitária, das redes de parceria e do protagonismo das mulheres na condução de iniciativas econômicas sustentáveis.
Vigilância territorial fortalecida com formação audiovisual de jovens indígenas
Outro resultado está ligado ao fortalecimento da vigilância territorial, especialmente a partir das formações de jovens para atuar como apoio técnico às estratégias já conduzidas pelas lideranças. Ao integrar conteúdos de comunicação, tecnologia e direitos indígenas, as oficinas permitiram o desenvolvimento de habilidades para registrar, documentar e comunicar situações relacionadas ao território, como ameaças, invasões e outras pressões externas. O uso de ferramentas digitais, da produção audiovisual e da elaboração de documentos ampliou a capacidade das comunidades de produzir evidências, acionar instituições competentes e dar visibilidade às suas demandas, contribuindo para uma vigilância mais ágil, articulada e estrategicamente comunicada. Além disso, a aproximação entre jovens e lideranças tradicionais favoreceu a continuidade das práticas de proteção territorial, ao combinar conhecimentos técnicos e saberes locais.
PROGRAMA WAJÃPI
Oficinas promovem a troca e a transmissão de saberes entre gerações
Na Terra Indígena Wajãpi, o foco do projeto foi o fortalecimento da transmissão de saberes entre as gerações. Abordando a produção de artefatos e utensílios de algodão, pelas mulheres, e de arumã, pelos homens, foram realizadas oficinas nas diversas regiões, reunindo mestres, mestras e pequenos grupos de aprendizes para o ensino e aprendizagem de técnicas, histórias, explicações e cuidados. Além das atividades práticas de produção de objetos, também foram realizadas pesquisas e registros escritos e audiovisuais dos jovens sobre os saberes dos mais velhos. O resultado, na avaliação de lideranças das diversas regiões, foi que muitos jovens que não haviam tido a oportunidade de aprender no cotidiano de suas famílias puderam adquirir conhecimentos considerados essenciais na formação dos homens e mulheres Wajãpi. Em uma segunda etapa, foram realizadas oficinas de sistematização dessas pesquisas com o objetivo de produzir livros e filmes para divulgação desses saberes e práticas, envolvendo também o aprendizado e aprimoramento de conhecimentos de informática pelos participantes.
Formações ajudaram também a fortalecer a tecelagem e o cultivo do algodão
Durante as oficinas do projeto, seguindo a tradição do povo Wajãpi, todo o trabalho relacionado à tecelagem de algodão foi realizado por mulheres, enquanto os homens ficaram responsáveis pelas atividades relacionadas aos trançados de arumã, divisão que contribuiu para que as mulheres fortalecessem sua capacidade de atuar no planejamento, organização, registro e coordenação de eventos. O fortalecimento da tecelagem das mulheres envolveu ainda um trabalho voltado ao cultivo do algodão, com levantamentos nas roças e pátios das aldeias, trocas de sementes e de saberes entre as mulheres e introdução de experimentos agroecológicos para controle de pragas. O resultado foi um grande crescimento da produção ao final do projeto, avaliado de forma muito positiva pelas mulheres participantes.
PROGRAMA ZO’É
Expedições nos limites da TI Zo’é ganham apoio e reforçam proteção territorial
O projeto viabilizou que o Programa apoiasse as iniciativas de vigilância sob responsabilidade dos próprios Zo’é, sustentado pela intensa mobilidade das famílias pelo território, aliando vigilância com atividades produtivas sazonais. Dessa mobilidade depende a qualidade de vida dos Zo’é, cuja alimentação é integralmente produzida in loco. Cada um dos 20 grupos locais se responsabiliza pela vigilância de determinadas regiões, acessíveis em canoas motorizadas, ao longo dos três eixos principais de vias navegáveis. Esse apoio é organizado a partir de reuniões trimestrais, quando os chefes e representantes de todas as aldeias atualizam seus movimentos para vigilância dos limites, paralelamente às temporadas de caça, pesca e coleta, de abertura e cuidado de roças distantes e/ou abertura de novas aldeias. Também foi possível apoiar expedições conduzidas pela Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapenama – Funai, realizadas duas vezes por ano, com a participação de 40 a 60 Zo’é, em zonas em que houve sinalização de possível presença de invasores e também nas áreas onde foram indicados possíveis vestígios de grupos isolados.
Formação apoia fortalecimento da gestão do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ)
O FAZ é um mecanismo de troca entre lotes de artesanato e de cumaru seco, por itens industrializados. Funciona como um sistema coletivo de crédito: todas as famílias entregam peças de artesanato e/ou sementes de cumaru seco e recebem itens comprados com recursos da venda desses produtos. Todas elas participam da produção e todas recebem os itens comprados, em acordo com listas precisas que, nos últimos dois anos, passaram a ser controladas pelos jovens da diretoria da Organização Indígena Tekohara. Assim, a seleção de itens é sempre construída coletivamente, em reuniões realizadas quatro vezes por ano. As atividades de formação em gestão conduzidas pelo Programa através de oficinas, acompanhamento das compras e publicação de dois cadernos de leitura na língua Zo’é resultaram num avanço significativo na apropriação, pelos jovens, das várias etapas de controle da entrega de artesanato e de cumaru pelas famílias, e também da distribuição dos itens adquiridos com os recursos do FAZ.

Comentários